Dando um pause no cotidiano

Dando um pause no cotidiano

O ano sabático é uma oportunidade para refletir sobre a vida profissional e pessoal. E os resultados podem ser muito positivos.

O ano sabático (ou período sabático) é conhecido como o espaço de tempo em que a pessoa retira uma licença de suas funções profissionais para dedicar-se a algum projeto de carreira ou pessoal. De modo geral, o ano sabático está relacionado a reflexões, sejam elas familiares ou de carreira, dentro de uma busca para o melhoramento pessoal. No ano sabático, a pessoa pode optar por fazer um curso, trabalhar em outra atividade (ou na mesma em que atua, só que em outra localidade), dedicar-se a algum tipo de voluntariado ou a algo que sempre quis fazer, mas nunca teve a oportunidade (ou tempo e dinheiro).

Ainda não é muito comum no Brasil, mas já há um movimento de empresas no sentido de pagar o ano sabático ao funcionário, ou simplesmente apoiá-lo, sem remuneração. Assim, seriam estimulados a reflexão e o crescimento pessoal do colaborador. Ou seja: algumas empresas já abriram os olhos para o fato de que esse tempo que o funcionário dedicará a ele mesmo pode ser de fundamental importância (positiva) para a corporação, principalmente se a pessoa tem seus devidos valores voltados à corporação.

“As empresas estão, cada vez mais, vendo isso como uma ferramenta de retenção de talentos”, afirma a professora dos MBAs da Fundação Getulio Vargas Anna Cherubina. Ou seja: as empresas têm começado a perceber que profissionais que procuram oxigenar suas visões de mundo (e sobre eles próprios) são “bons investimentos”. “No período sabático, as pessoas investem em si e voltam aprimoradas pela cultura, pela experiência que vivenciaram. E tudo isso vai trazer um processo de crescimento para a pessoa e para a empresa onde ela estava inserida”, argumenta a professora.

De modo geral, a maior parte das pessoas que buscam um período para si mesmas passou por um desgaste emocional. Não significa que isso seja regra, pode ser que algumas queiram apenas refletir, mas não necessariamente estejam insatisfeitas. No entanto, com a crise no país, a grande quantidade de demissões, as exigências cada vez maiores e o mundo globalizado, é natural que períodos de reflexão se façam necessários. Seria uma “parada técnica e estratégica”, como define a professora Anna Cherubina.

Segundo ela, é necessário refletir quando há um sentimento de vazio, de distanciamento do mundo exterior. “Quando a pessoa começa a perceber que está se esvaziando de possibilidades, de ideias, de coisas novas. Percebe que está fazendo mais do mesmo”, observa a professora.

A psicóloga da área de Psicologia Organizacional e do Trabalho Mariana Patottuci Bacellar explica que a tomada de decisões, muitas vezes, vem dos impulsos.

Assim, em algum momento da vida, em geral de crises, as pessoas acabam pensando no seguinte: “O que fiz da minha vida até agora?”, ou “a vida está passando e ainda não fiz o que realmente quero!”. Mas a necessidade do “stop” também pode vir de um luto, um período depressivo e até mesmo de momentos de transição na carreira.

Segundo Mariana, essas pausas são positivas, pois de modo geral a pessoa sai da frequência insana do mercado de trabalho e entra em outra, totalmente diferente e necessária. A professora Anna acredita que os períodos sabáticos trazem equilíbrio e saúde mental.Em geral, as pessoas que procuram um período sabático também querem se autoconhecer melhor. Assim, terão mais subsídios para as mudanças que podem acontecer no retorno, sejam elas pessoais ou profissionais.

“É uma viagem para dentro dele mesmo”, salienta a coach de carreira e docente na área de Gestão de Pessoas da FAE (Centro Universitário), Cibele Bastos. Segundo ela, no período de pausa e reflexão, a pessoa aumenta o repertório para lidar com a realidade que a cerca e até pode descobrir novas habilidades. “Quando o papel que a pessoa desenvolve já não é mais coerente com o que ela acredita, ela se desconecta da vida. Com o período sabático, a pessoa terá maior inteligência emocional e até poderá recuperar o fôlego para lidar melhor com as adversidades”, comenta Cibele.

MUDANÇA DE ARES QUE FAZ BEM

Heloisa Andrade resolveu tirar um ano sabático que mudou sua vida. De profissional workaholic, passou a atuar como freelancer, o que foi bastante positivo para ela, pois não havia insatisfação com a profissão, mas sim com o tempo dedicado a ela. E no período sabático ela conseguiu refletir sobre o assunto. “Eu sentia uma angústia que não conseguia entender de onde vinha. Perguntava a mim mesma por que eu não me sentia feliz. No período sabático, tive a oportunidade de entender que tipo de vazio era aquele”, relata.

Durante o tempo em que ficou em reflexão, Heloisa conseguiu estender o olhar para a carreira, passando a ver coisas que não conseguia enxergar. Tanto que, quando voltou, colocou em prática os resultados dessa aná- lise e passou a trabalhar menos horas por dia. “Os ganhos são menores, mas consigo administrar melhor o meu tempo. Às vezes, sinto que a minha tendência compulsiva por trabalho pode voltar, mas consigo colocar limites para mim mesma”, conta.

Heloísa escreveu o livro “Sabático 45”, no qual dividiu as decisões em capítulos: motivação, preparação, vivência e pós-sabático. Dentro de cada uma das fases há duas seções: a do coração e a da razão. Na segunda, ela descreve a organização do ano sabático e, na primeira, relata em crônicas as experiências emocionais do período em que viveu fora do país.

O RETORNO

A diferença de frequências à qual Mariana se refere pode impactar no retorno ao trabalho. O comum, para a maioria, é a correria do cotidiano. E no período sabático acontece o contrário. Apesar de haver esse choque, a volta pode (e deve) ser harmoniosa.

 “A pessoa retorna com um novo modelo para seus processos de escolha. Volta mais consciente, socialmente sustentável, passa a escolher as coisas porque estas fazem bem, e não porque lhe trarão mais benefícios financeiros, por exemplo”, explica. É preciso, segundo ela, trazer esse novo olhar gradativamente para a empresa. “O mundo corporativo nem sempre está preparado para isso. Mas é um novo conceito de sustentabilidade social que precisa ser colocado em prática”, analisa. Antes de sair por aí num período sabático, é necessário pensar seriamente nos valores. “É preciso avaliar em que momento de vida eu estou”, reitera.

ALGUNS QUESTIONAMENTOS SOBRE PERÍODOS SABÁTICOS

→ Tirar um período sabático não é sinônimo de abandonar tudo. É preciso organização.

→ Devo avaliar o momento que estou vivendo: será produtivo um período de pausa?

→ Quais são os meus valores?

→ Devo ter consciência de que a vida não será deixada para trás, mas sim que ela será retomada após um período.

→ Devo planejar o lado financeiro: quanto vou precisar para o período sabático?

→ Devo fazer uma reserva para o retorno, pois nem sempre voltarei ao trabalho.

→ Pensar na família: eles vão comigo ou ficarão à minha espera?

→ Como ficam meus relacionamentos afetivos?

→ Pensar nas minhas contas: alguém vai pagar enquanto eu estiver fora? Vou cancelar alguns serviços?

→ Para onde vou? Como são as condições climáticas e culturais?

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