Sim à multidisciplinaridade

Sim à multidisciplinaridade

Tomas de Aquino Guimarães, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad), tem uma visão de vanguarda. Ele acredita que a possibilidade do registro profissional, nos CRAs, de mestres e doutores em Administração, egressos de diferentes cursos de graduação que atuam em determinada área da Administração, enriquecerá o mercado. Aquino Guimarães formou-se em Administração há mais de 40 anos, pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF). Em 1982, conquistou o título de mestre, na mesma área, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), o professor tem ampla experiência acadêmica, atuando na Universidade de Brasília (UnB) e em institutos fora do país. Para ele, a Administração é uma área polivalente e transdisciplinar, características determinantes para que optasse por “seguir esse caminho”, como afirma.

RBA: COMO FOI SUA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL? Tomas de Aquino: Trabalhei na Embrapa por mais de 20 anos. Após o doutorado, comecei a lecionar e atuar na academia. Vim para a UnB em 1996, inicialmente para um período de 20 horas, portanto, professor em tempo parcial, e continuei na Embrapa e na UnB. Fiz a opção pela academia porque me apaixonei pela atividade docente. Optei por uma profissão – muito mais do que uma profissão, um caminho de vida.

RBA: QUAL É A SUA VISÃO A RESPEITO DA ADMINISTRAÇÃO? POR QUE ESCOLHEU ESSA ÁREA? Tomas de Aquino: Eu gosto da profissão que escolhi. É uma área com capacidade incrível de fazer com que as coisas funcionem de uma forma melhor, sociedades, empresas, organizações de um modo geral; é uma área multidisciplinar, que bebe de diversas fontes do conhecimento, desde Engenharia até Psicologia, passando pela Economia, Matemática e Sociologia. Portanto, a Administração ajuda no equilíbrio das relações sociais, no melhor funcionamento de organizações privadas e públicas de maneira geral.

RBA: O SENHOR TAMBÉM É PESQUISADOR. QUAL É SUA LINHA DE PESQUISA? Tomas de Aquino: Atuo há cerca de oito anos em uma linha nova de pesquisa chamada Administração da Justiça. É uma linha que ainda tem pouca gente na Administração trabalhando, uma avenida muito grande a ser percorrida. Eu diria que, no Brasil, pouco mais de 15 grupos registrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) têm esse termo nas suas palavras-chave do título de grupo de pesquisa, e apenas um grupo pertence à Administração, que é nosso aqui da UnB.

RBA: COMO É A SUA ATUAÇÃO NA ANPAD? Tomas de Aquino: Faço parte da Anpad há mais de 20 anos. Já fui diretor de Comunicação e Publicações, editor da RAC [Revista de Administração Contemporânea], publicação da Anpad. Agora, em 2015 e 2017, estou diretor-presidente da Anpad. O mandato termina em dezembro, quando passaremos a gestão para outro grupo, capitaneado pelo professor Antonio Massada, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

RBA: E A EXPERIÊNCIA ACADÊMICA FORA DO BRASIL? POR ONDE PASSOU? Tomas de Aquino: Atuei no Instituto Superior da Universidade de Lisboa em 2015 e 2016, fiz pós-doutorado no Canadá (em Montreal), pós-doutorado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (2013 e 2014), mas tendo sempre a UnB como minha base.

RBA: QUAL É A SUA OPINIÃO SOBRE O REGISTRO DE MESTRES E DOUTORES EM ADMINISTRAÇÃO NOS CONSELHOS REGIONAIS DE ADMINISTRAÇÃO (CRAs), ORIUNDOS DE OUTRAS ÁREAS? Tomas de Aquino: Em primeiro lugar, eu queria enfatizar que a Administração é uma área eminentemente multidisciplinar. Nesse sentido, vejo com muito bons olhos o registro de profissionais de outras áreas, mestres e doutores, que atuam em determinado campo da Administração.

RBA: O QUE ATRAI PROFISSIONAIS DE OUTRAS ÁREAS AO MESTRADO, DOUTORADO EM ADMINISTRAÇÃO? É UM CAMPO POLIVALENTE? Tomas de Aquino: Não é só polivalente é uma área plural, multifacetada, nada melhor do que ter profissionais com formações diversificadas, que orbitam em torno da administração passem a fazer parte do Conselho. Portanto, acho que a riqueza da área da Administração está justamente nisso: na multidisciplinaridade.

RBA: CONSIDERANDO QUE OS MESTRES E DOUTORES SÃO AQUELAS PESSOAS QUE PESQUISAM, ESCREVEM E PREPARAM INTELECTUAL E PROFISSIONALMENTE OS FUTUROS ADMINISTRADORES, COMO O SENHOR VÊ O ACOLHIMENTO DO REGISTRO PELO NOVO ESCOPO DOUTRINÁRIO? Tomas de Aquino: Vejo isso como algo bem importante, legitima profissionais que não são bacharéis em Administração, mas tem em sua atuação uma área de concentração da administração.

RBA: HOUVE MUITA RESISTÊNCIA A RESOLUÇÃO DO CONSELHO FEDERAL QUE AUTORIZA O REGISTRO DE MESTRES E DOUTORES. ALGUNS DISCURSOS DIZIAM QUE A MEDIDA PODERIA DESVALORIZAR A PROFISSÃO E REDUZIR POSTOS NO MERCADO DE TRABALHO, SOB A ALEGAÇÃO QUE PROFISSIONAIS DE OUTRAS ÁREAS, ESTARIAM INVADINDO O CAMPO DO ADMINISTRADOR. O QUE MOTIVA ESSA OPOSIÇÃO? COMO PRESIDENTE DA ANPAD, INSTITUIÇÃO QUE LIDA TODOS OS DIAS COM MESTRANDOS E DOUTORANDOS, O SENHOR ACREDITA QUE EXISTEM ESSES PERIGOS? Tomas de Aquino: Em primeiro lugar: a atuação de profissionais de outras áreas, como já falamos, faz parte da natureza da Administração. Eu diria que a área da Administração, especialmente no que se refere à docência e pesquisa, é tão grande no país que tem campo para todo mundo. Para que você tenha ideia, a área da Administração, juntamente com a da Educação, responde por 45% do corpo discente dos cursos de graduação presenciais e a distância do país. Eu acompanhei durante um bom período o comitê de avaliação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da área de Administração, Contabilidade e Turismo. Na época, começo dos anos 2000, havia no comitê uma exigência de certo percentual de doutores em Administração para compor projetos de cursos novos de mestrado e de doutorado. O que acontecia? A área não crescia em termos de cursos de doutorado e mestrado porque não havia doutores em Administração disponíveis no mercado de trabalho brasileiro para compor esses cursos. Essa exigência deixou de existir e a CNPq passou a focar na competência do indivíduo. Portanto, entre 2005, 2006 até 2016, nós passamos de um conjunto de menos de dez doutorados da área no país para mais de 60. Ou seja, houve uma composição de corpos docentes para cursos de mestrado e doutorado formados por profissionais de áreas distintas com doutorado e experiência em Administração, o que proporcionou o fortalecimento da área. Eu diria que é muito bem-vinda, portanto, essa possibilidade de os Conselhos Regionais de Administração, reconhecerem, mediante o registro profissional, indivíduos que tenham mestrado e doutorado em Administração.

 

 

 

 

 

 

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