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Metaprofissões: tendência ou modismo?

Nova onda tem se popularizado em empresas, e o fenômeno é analisado por especialistas.

Por Leon Santos

Desde o último ano, inúmeras transformações surgiram na trilha da hiperdigitalização causadas pela pandemia e isolamento social. Projetos como o metaverso, vistos no passado apenas como sonho ou possibilidade, agora tomam corpo e podem se tornar a nova tendência da sociedade.

Segundo levantamento da consultoria ‘Pricewaterhousecoppers Brasil’, cerca de 1 milhão de empregos já utilizam a realidade virtual em seu dia a dia. E a previsão é de que em menos de 10 anos sejam 23 milhões de empregos em todo o mundo.

Em meio a tantas mudanças, os mercados de trabalho e empresarial já começam a explorar o novo recurso e aderir à novidade para não ficarem para trás. Um exemplo veio da empresa brasileira “Companhia de Estágios”, que já começou a fazer recrutamento de candidatos pelo metaverso.

Um dos objetivos da empresa é saber se o modo como o candidato se comporta na realidade virtual é semelhante ao mundo físico. O ambiente também serviria para superar possível timidez dos postulantes às vagas; substituir a frieza dos processos seletivos tradicionais por algo mais interessante; além de saber como — em meio a infinitas possibilidades— o candidato construirá seu avatar (personagem digital) e qual será sua interação e desenvoltura nos trabalhos a distância.

Futuro?

Segundo o administrador e pesquisador Américo Ramos Filho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), além da utilização no dia a dia, o experimento no mundo virtual pode trazer respostas quanto à reprodução de problemas recorrentes como perda de privacidade, controle intensivo das empresas e propagação de desinformação. Pode, ainda, trazer dados sobre consequências físicas e psicológicas para os indivíduos.

Para o pesquisador, à medida que o metaverso se populariza, a tendência é que as metaprofissões avancem sobre o mundo corporativo. Isso deve envolver não apenas os processos seletivos, mas também a interação ‘organização-trabalhador’, as tarefas cotidianas e também os treinamentos.

Américo exemplifica ao contar que empresas como a Scania (automotiva) e a cervejaria Ambev (subsidiária da ABInbev) também já têm testado o metaverso, ao utilizar tanto em teleconferências com a presença física e também com o uso de avatares. Para o administrador, tais transformações repercutem na flexibilização do trabalho, onde o foco deve ser nas entregas e não nos horários de trabalho: com maior uso do teletrabalho e de ambientes de coworking.

“Nos próximos meses, ou menos, teremos outros exemplos sobre como essa tecnologia será trabalhada. Como tudo ainda é muito novo, fazer prognósticos torna-se uma aposta em que os resultados das pesquisas correm o risco de perder terreno ante as decisões estratégicas empresariais tomadas a uma velocidade cada vez maior”, avalia Américo.

Oportunidade

Para o professor e pesquisador no curso de Administração da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Marison Soares, modismo ou não, por trás dos novos formatos de trabalho há questões muito mais profundas envolvidas. Como educador, ele destaca que as metaprofissões não têm sido contempladas nas grades das universidades — o que pode aumentar o desemprego— e tem ainda práticas laborais e questões legais que futuramente podem ser modificadas em razão da nova tecnologia.

Sobre o perfil das funções, ele acredita que o cenário ainda está mais direcionado ao mercado de TI, embora o consumo dentro do mundo virtual possa abrir portas para a administração e outros segmentos de negócios. Em relação às prováveis mudanças de perfis das funções, ele ressalta que as metaprofissões farão parte do cenário trabalhista, apenas quando elas estiverem consolidadas na sociedade.

O pesquisador destaca, no entanto, que os profissionais de TI e de administração deverão dominar de algum modo o mundo digital, em especial o universo da gameficação (jogos), do hardware (noção de eletrônica e funcionamento de equipamentos) e de software (programação). Além disso, precisarão ter perfil dinâmico e competências de uma geração conectada ao futuro, sem medo do que pode ser construído e reinventado — o que pode impactar positivamente o mundo dos negócios.

“São janelas de oportunidades que todos precisam estar atentos e preparados para aproveitá-las. Por outro lado, nossa legislação jurássica também precisará se adaptar, pois tudo isso vai exigir maior flexibilidade por parte dos profissionais, organizações e governos”, finaliza.

Box

A primeira vez que a palavra metaverso apareceu foi no livro Snow Crash, de 1992, do autor Neal Stephenson. A história narra uma realidade distópica (sombria e submetida a regime totalitário) em que as pessoas se refugiam em um mundo virtual para escapar do controle da sociedade e do governo.