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Mobilidade disruptiva

Dificuldade de deslocamento nas grandes metrópoles impulsiona o conceito de cidades inteligentes e de soluções simples, e até mesmo gratuitas.

Por Leon Santos

Mesmo com a recente redução no preço dos combustíveis (no momento em que esta matéria é escrita), existe forte tendência de aumento em 2023 para compensar a benesse do ano anterior. Muito além do preço, o que preocupa os habitantes das grandes cidades, além dos gastos, é a falta de iniciativa para melhorar a locomoção urbana na maior parte do país.

Até aqui, nenhuma novidade, exceto pelo fato de a questão ter sido postergada há décadas no Brasil. E pior, cada vez mais o problema tem afetado a saúde dos habitantes cuja cidade apresenta o problema.

Segundo a professora do curso de Engenharia de Transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG), Poliana Leite, quanto mais reduzida é a oferta de transporte, mais a população recorrerá a soluções que em longo prazo trazem problemas de mobilidade, segurança, saúde e produtividade. Ela cita como exemplo o uso de motos, que mesmo sendo mais barato no quesito custo, por outro lado fez crescer os gastos com atendimentos de acidentados: apenas em 2021, o SUS despendeu R$ 171 milhões em tratamentos.

“Esses números não significam apenas a perda financeira, mas também a perda da produtividade, pois grande parte desses acidentados são trabalhadores que ficarão licenciados, em tratamento. Além disso, há outro agravante, a perda da vida — a moto é apenas um exemplo desse quadro”, ressaltou.

Acúmulo

A pesquisadora ressalta que as poucas opções de transporte público (na maioria das vezes, de má qualidade) faz com que as pessoas optem por utilizar automóveis. Isso causa não apenas o aumento de fluxo nas vias, como também a poluição ambiental e sonora; além de produzir doenças respiratórias e psicossomáticas (sobretudo o estresse) em trabalhadores e estudantes que enfrentam as ruas no cotidiano.

Perguntada sobre qual é o nível de preocupação governamental com a mobilidade urbana no Brasil, a professora diz que apenas 16% dos municípios brasileiros possuem planos dedicados ao tema. Devido ao impacto na saúde e qualidade de vida dos cidadãos, o assunto deve ser pauta nas eleições deste ano, o que requer atenção sobre as propostas, se factíveis ou não, dos candidatos.

Quanto mais demoram em planejar, mais os problemas se acumulam. E quanto maior o tempo entre o plano e a operacionalização desse plano, mais ele se torna defasado. Algumas vezes o plano apresenta antigas soluções, quando precisava apresentar uma visão sistêmica atrelada a novas soluções”, explica.

Soluções

Entre algumas das novidades adotadas em outros países para solucionar o problema do trânsito estão investir em segurança pública, sobretudo, para proteger aqueles que podem ser assaltados mais facilmente, tais como ciclistas, pedestres e motociclistas. A iniciativa, que em princípio não tem a ver com transporte, ataca de forma sistêmica tanto a questão dos transportes (para pequenas e médias distâncias) como também o sedentarismo (saúde) e evita assaltos e contravenções em geral, ao aumentar a sensação de segurança e diminuir o estresse causado pelo estado de atenção e de pânico nas ruas.

Para o doutor em administração e professor do COPPEAD/UFRJ, Gustavo Nobre, o Brasil precisa seguir evoluções sociais e tecnológicas no quesito transporte, tais como as que são praticadas em cidades como Oslo (Noruega), Singapura (Cidade-Estado), Copenhagen (Dinamarca) e até mesmo em Nova Iorque (EUA). Ele explica que as mudanças em tais localidades não foram somente focadas na ampliação de ruas, estradas e viabilização de novos meios de transporte, mas na instituição de cidades inteligentes.

“Como explicar uma cidade com população crescente que está reduzindo o número de veículos, e aumentando a qualidade de vida de seus cidadãos? É o caso de Tengah, na Singapura, planejada para ter 42 mil residências, e hoje investe em quase tudo automatizado — desde a coleta de lixo até a política de carro zero”, destaca.

Fora da Caixa

Nobre ainda levanta uma discussão que interessa todo administrador, que é a redução de custos e de tempo. Ele diz que é preciso pensar fora da caixa e questiona que ao invés de oferecer novas formas de locomoção, e ampliar as ofertas atuais, seria melhor reduzir a necessidade de deslocamento principalmente em grandes distâncias.

O administrador ainda destaca o sucesso do Home Office, durante o lockdown, como uma das formas para atacar em cheio parte do problema dos transportes no Brasil. O maior uso de dispositivos de telecomunicações também é indicado, por ele, como solução para evitar reuniões e viagens desnecessárias.

Outra saída adotada em outros países é o conceito “Work near home” (WNH) — nova tendência que consiste em trabalhar em espaços de coworking, localizados próximos às residências dos colaboradores. O ambiente combina benefícios do escritório e de casa, além de aliviar muitas deficiências: como mobiliário inadequado ao trabalho, presença de atmosfera profissional (longe dos problemas domésticos), serviços de cafeteria e internet rápida.

Outra solução é haver jornadas de trabalho, com início em horários diferentes. O deslocamento de uma hora já ajudaria bastante, com expedientes iniciando às 7h, 8h, 9h e 10h, por exemplo, pois existem atividades que podem ser realizadas em horários alternativos — até mesmo à noite,— porém, de todo modo, o não ir ao escritório é melhor ainda”, conclui.